Esta é a
história de um copo. Um copo como tantos outros, de vidro, um pouco embaciado
devido às inúmeras lavagens a que foi submetido, mas também pelo passar do
tempo.
Não se trata de mais uma banal história
sobre um copo que fala e tem pensamentos, porque este objecto, que todos usamos
no nosso dia-a-dia, tem uma pequena particularidade, não gosta de ser molhado.
Começarei então a narrar um bizarro episódio
da vida do nosso copo.
Era um
dia como tantos outros, o copo iniciava a manhã dentro de um armário da cozinha
da casa de Joana ao lado de tantos outros copos e chávenas, como era habitual.
Joana levantou-se de manhã cedo e, antes de começar a tomar o seu
pequeno-almoço, decidiu beber um copo de água. Para este efeito, abriu o
armário e pegou no nosso copo. Este, pressentindo que ia ser molhado, começou a
ficar embaciado de tanto medo, embora tentasse dizer a si próprio que o facto
de a Joana o estar prestes a encher de água, não era algo assim tão dramático.
Percebendo a aflição do copo, todos os outros começaram a fazer troça dele, bem
como as chávenas e todos os outros objectos de cozinha.
Joana abriu o frigorífico, onde tinha sempre
uma garrafa de água bem fresquinha, pegou nesta, enquanto vertia a água para
dentro do nosso copo. Mal começou a sentir a sensação húmida que percorria todo
o seu volume, o copo sentiu-se como se estivesse a estilhaçar-se em pequenos
pedacinhos de vidro, desejando que a rapariga acabasse depressa com aquele seu
sofrimento atroz. Joana bebeu de um só trago toda a água que estava dentro do
copo, limpou-o e voltou a metê-lo dentro do armário. Apesar de já não conter
água dentro de si, o pobre copo continuou deprimido durante algum tempo, sem
poder contar com a compreensão dos outros objectos, pois estes não paravam de o
humilhar.
Passadas umas horas, o nosso amigo já se
encontrava mais calmo e de volta ao seu estado de espírito habitual, decidido a
aproveitar da melhor maneira possível o resto do dia, pois, na manhã seguinte,
repetir-se-ia o mesmo cenário.
Catarina Rodrigues
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